sábado, 31 de maio de 2014

Crônica da máquina de lavar

Quando estou em casa, sozinha com meu cachorro, a máquina de lavar roupas funciona o dia inteiro. É como se fosse simbolicamente a lavagem de todas as mágoas, decepções, frustrações e compromissos adiados, ou mesmo o "passar a limpo" dos pensamentos, bons ou ruins.

Freneticamente, as roupas sujas são lançadas à máquina. Aperto botões, ouço o seu encher, o seu chacoalhar e o seu centrifugar, retiro roupas úmidas e reinicio o ciclo. Geralmente, um ciclo curto, com molho curto, porque as roupas nunca estão encardidas, mas jamais estarão pouco sujas, talvez como minha conciência vê os meus pensamentos. E, varal após varal, as roupas balançam ao vento.

As meias são penduradas par a par, às vezes presas pela boca, outras vezes pela ponta do pé, decidido a esmo, sem muito método ou encanação, assim como algumas decisões banais que tomamos durante o dia. Entretanto, as camisetas são irredutíveis: sempre presas pela "linha mamilar" para que não fiquem com cara de trapézio, nem com gola desbeiçada...

Calças jeans mais próximas do exterior da casa, camisetas de corrida, mais para dentro. Sutiãs nas laterais do varal de chão. E quando a maioria seca, é retirada, separada por categorias "passar" e "não passar", e colocadas em uma sacola. Aquelas retardatárias com bolsos, cós e fundilhos úmidos, se juntam em uma extremidade do varal, agora desfalcado, e aguardam a sua vez de se juntarem às outras, e recomeçar o ciclo.

E assim as ideias, pensamentos e sentimentos são lavados, torcidos, enxaguados, centrifugados, repensados, separados e recolhidos.

Um comentário:

Di disse...

gostei. me fez pensar.